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Ensaio sobre a incansável reconstrução do mundo: uma leitura de Aniquilar de Michel Houellebecq.

  • Foto do escritor: Vinícius de Oliveira.
    Vinícius de Oliveira.
  • 11 de jun. de 2024
  • 20 min de leitura

Atualizado: 23 de jun. de 2024





Aniquilar, último romance publicado do premiado autor francês Michel Houellebecq, em 2022, pode ser lido, a um só tempo, como um thriller policial sobre uma conspiração terrorista, uma sátira política, e um drama familiar. É uma narrativa com três eixos claros e no vértice que os conecta está Paul Raison, o protagonista, um funcionário público como quase todos os protagonistas dos romances do autor.


Trata-se de um romance sui generis no conjunto da obra de Houellebecq. Primeiro, pela extensão. Em geral, seus romances têm tamanho médio, mas este é longo. Houellebecq finalmente quis fazer o seu Guerra e Paz (1867), o seu Irmãos Karamazov (1879). A edição francesa original tem 733 páginas. A segunda novidade é o estilo. Ao desassombro, ao despudor, à tranquilidade, à fluidez e ao nonchalant com que Houellebecq narra acontecimentos violentos, obscenos, absurdos, e dolorosos, em Aniquilar, ele soma, de forma inédita para quem leu seus outros livros, a compassividade e um quase-lirismo, abandonando, por outro lado, os tons mais ácidos de ironia e o sarcasmo. A terceira grande novidade é o caráter do protagonista: embora funcionário público que é tirado da monotonia por acontecimentos extraordinários, como todos os outros, não é uma figura solitária e cínica, mas um homem casado, mas sem filhos.


Paul Raison, formado em Ciências Políticas na extinta École Nationale d´Administration, alma mater de 9 primeiros-ministros, é servidor do Departamento de Orçamento do Ministério da Economia e Finanças. Diferentemente do protagonista de Plataforma (2021), de Submissão (2015), ou de Serotonina (2019), não está no baixo ou médio escalão. Foi convocado pelo Ministro da Economia, Bruno Juge, para ser seu assessor. Bruno o escolhe após terem tido uma conversa íntima sobre a crise das relações sexuais no casamento de ambos. Bruno queixa-se de não “fazer amor” com sua esposa há 6 meses; Paulo, há 2 anos! O encontro é em Adis Abeba, na Etiópia, onde Bruno acaba caindo na tentação de fazer o que todos os grandes burocratas e executivos de grandes corporações foram fazer lá sob o pretexto de introduzir indústrias na África: turismo sexual. É nesse ponto que o thriller policial, a sátira política e o drama familiar, os três pilares do romance, se encontram. Acontece já nos primeiros capítulos do romance. Casamento ameaçado, o pai derrubado por um AVC, o trabalho com um Ministro e a advertência para um atentado terrorista que pode alvejar seu chefe ocorrem simultaneamente.


Em resumo, eis a trama. Vamos aos detalhes.


O thriller policial: o pentagrama invertido dos satanistas e Joseph de Maistre como chave para a solução do caso


Edouard, pai de Paul Raison, é um agente aposentado de um braço do serviço secreto francês, a Direction Générale de la Sécurité Intérieure (DGSI). Os agentes ainda atuantes desse departamento formam um núcleo próprio dentro do romance ao lado de desconhecidos terroristas que deixam mensagens e vídeos forjados por inteligência artificial. Num desses vídeos, Bruno Juge é decapitado por uma guilhotina da Revolução Francesa. Detalhe: a peça de inteligência artificial era tão avançada que, ao se ampliar a imagem, “no momento em que o sangue jorra da carótida” via-se um realismo inaudito no tronco decapitado. Em vez de microfiguras artificiais poliédricas, veias e artérias com padrões reais, numa mistura aparentemente caótica como é possível se visualizar numa autópsia.


Aposentado e viúvo simultaneamente, Edouard continua a trabalhar em dossiês por conta própria. Os terroristas antes dos três grandes atentados que cometem divulgavam na internet vídeos com mensagens cifradas compostas por “pentágonos, círculos, e caracteres bizarros”. Edouard antes de ter um AVC que o leva ao estado vegetativo, começa a investigar essas mensagens. Redige então um relatório que Paul repassa a Martin-Renaud, alto funcionário do DGSI. Este burocrata secreto havia trabalhado com seu pai. Os pentágonos e círculos, segundo a pesquisa de Edouard, remetem a Baphomet, uma representação do demônio cara a satanistas, e existente desde a baixa Idade Média (Baphomet, provavelmente, é uma corruptela de Maomé). Terroristas satanistas? Parece piada. A coisa, porém, começa a ganhar algum aparente sentido à medida em que os atentados se sucedem.


O primeiro atentado é contra um gigantesco porta-contêiners chinês pouco tripulado e muito automatizado. Acontece “ao largo de La Coruña, no limite das águas territoriais espanholas”, a noroeste da Espanha.


O segundo atentado é ao depósito da empresa Cryo, que armazena sêmen doado para a reprodução artificial humana. Acontece na Dinamarca. Esse segundo atentado leva os investigadores da DGSI a levantar uma lista de suspeitos: possíveis extremistas católicos que são contra a reprodução artificial; ecoterroristas que querem acelerar o antropoceno, ou seja, a extinção humana. Conquanto absurdo, existem grupos reais com esses objetivos. Exemplos: o Gaia Liberation Front e o Voluntary Human Estinction Moviment. Outros suspeitos são os anarcoprimitivistas, ou neoluditas, que almejam não a extinção da nefasta espécie humana, mas o retorno da humanidade a um modo de produção de caçadores-coletores, fazendo tábula rasa da indústria, da agricultura, de toda a tecnologia, de todas as instituições políticas e até mesmo da linguagem articulada. Um dos líderes anarcoprimitivistas mais conhecidos ainda vive e se chama John Zerzan, uma das influências do Unabomber. Os último suspeitos são antinatalistas como o grupo real Church of Euthanasia, que objetiva uma redução drástica da espécie humana para reequilibrar o mega-ecossistema de Gaia. Estes grupos costumam receber a classificação de deep ideology pelos cientistas políticos, pois são tão esquisitos, paranoicos, e clandestinos, quanto os navegadores da deep web.


O terceiro e último atentado é sangrento. Alveja um um grupo de imigrantes ilegais africanos que pretendia aportar na costa espanhola, atravessando o mar a sudeste da Espanha, próximo a Ibiza, para depois chegar à França. Houellebecq sugere que o presidente socialista espanhol, maliciosamente, favoreceria a imigração para o seu país, para agradar humanismo europeu, sabendo que depois os imigrantes partiriam para a França, passando assim o abacaxi para o país vizinho. Um jogo duplo. É um atentado terrível! Um desastre humanitário que causa um abalo internacional de magnitude semelhante à da invasão da Ucrânia em 2022, ou o ataque do Hamas a Israel e a consequente reação inclemente de Netanyahu em 2023.


O terceiro atentado faz com que os investigadores fiquem mais confusos e ponham em dúvidas a ligação entre os três. O único indício que os une são as mensagens compostas de pentángonos e círculo que remetem a um símbolo satanista. Agora os suspeitos não são mais ecoterroristas, antinatalistas, anarcoprimitivistas, mas a direita radical identitária europeia.


Por fim, uma descoberta de um dos investigadores torna a trama ainda mais insólita. Ligando os três pontos geográficos onde ocorreram os atentados (um ponto no mar territorial espanhol a noroeste, uma cidade na Dinamarca, e um ponto no mar de Baleares próximo a Ibiza), podia-se obter um pentágono invertido e em torno dele era possível traçar um círculo perfeito cujo centro era um ponto no coração do território francês. Obviamente, faltavam dois pontos onde deveriam ocorrer outros dois atentados para que o pentágono se tornasse completo, e, dado que as mensagens cifradas remetiam a Baphomet, cuja cara de bode aparece tradicionalmente no meio do pentágono invertido, tornava-se possível prever exatamente onde ocorreriam os próximos atentados.


Isso é tudo o que o narrador nos revela sobre a trama terrorista. Houllebecq deixa o leitor livre para fazer suas conjecturas. É muito improvável que o autor tenha deixado a conspirata inconclusa para retomá-la em outro livro. Aliás, fica mais interessante deixar o caso inconcluso. Dá inclusive mote para que novos escritores explorem uma continuação das história, escrevam spin-offs e fanfics.


Em minha interpretação particular, o autor deixa uma pista interessante para compreender a ideologia e as intenções dos terroristas. O nome é Joseph de Maistre (não confundir com Xavier de Maistre, mentor estilístico de Machado de Assis).

Para quem não o conhece, trata-se de um ícone do reacionarismo pós-Revolução Francesa. O conde Joseph-Maria de Maistre (1753–1821) foi um dos intelectuais influentes na Restauração, período histórico que sucede à queda de Napoleão e traz de volta a Monarquia, a dinastia Bourbon, e o poder temporal do clero católico. Joseph de Maistre é um crítico feroz da Revolução Francesa, não só de suas fases obviamente censuráveis (o período do Terror, sobretudo), mas de todo o movimento iluminista que precedeu à revolução, à ideia de declaração de direitos do homem, e à negação do absolutismo monárquico. Maistre não é um conservador como Edmund Burke (1729–1797), é um reacionário. Burke valorizava a progressiva e pacífica evolução da liberdade política e da democracia no Ocidente; de Maistre a negava. Para ele, todo e qualquer direito é concedido pelos reis e provinham de inspiração divina. É um autor estudado por constitucionalistas como o negador de qualquer progresso constitucional no sentido de limitação do poder arbitrário. Se o poder é dado a reis em revelações históricas pontuais, é inconcebível a ideia de poder e direitos emanados do povo.


Mas o ponto que interessa aqui é outro. Houellebecq em uma das suas divagações histórico-filosóficas mais interessantes no livro discorre sobre de Maistre e sobre como ele tentou demonstrar que a Revolução Francesa, e quiçá toda a modernidade a partir do Iluminismo, teve inspiração satânica. Vale a pena transcrever:


“A prisão de La Petit Force [que se tornaria um hospital onde Paul fora tratar de uma doença], como tantas outras, foi invadida em setembro de 1792 por uma multidão de sans-culottes que, agindo espontaneamente, segundo os historiadores, estavam atrás de aristocratas para exterminar. Como em outros cárceres, alguns presos foram libertados arbitrariamente enquanto outros foram degolados antes de serem literalmente cortados em pedaços. Avançando em suas leituras, Paul se deparou com uma carta do Marquês de Sade, que estava em Paris durante esses dias, relatando os acontecimentos da seguinte forma: ´Dez mil prisioneiros morreram no dia 3 de setembro. A princesa de Lamballe foi uma das vítimas; sua cabeça, na ponta de uma lança, foi oferecida aos olhos do rei e da rainha, e seu infeliz corpo arrastado pelas ruas depois de ter sido profanado, dizem, por todas as infâmias da mais feroz devassidão´. Gilbert Lély, seu biógrafo, achou por bem esclarecer, em um relato que deveria abalar as imaginações: ‘Cortaram seus seios e a vulva. Com esse delicioso órgão um carrasco fez um bigode, provocando grande hilaridade nos patriotas e exclamou: Essa puta! Agora ninguém mais vai meter aqui’.

Sem dúvida é normal que os idosos se interessem pela história, que relativiza a sua morte ao reconstruir os destinos de pessoas importantes, ilustres e às vezes até onipotentes, e que mesmo assim viraram pó. E Paul era uma pessoa muito idosa, considerando que a idade real não é medida pelos anos que você já viveu, mas pelos que ainda tem para viver. Provavelmente foi isso que o aproximou de Joseph de Maistre, de quem descobrira recentemente que seu pai era leitor assíduo. Comprou um volume com suas principais obras, para ler alternando com Agatha Christie, parecia um bom mix. Captou logo a tese central do autor saboiano: a Revolução Francesa teve inspiração satânica do início até o fim, os filósofos iluministas que lhe deram origem, alguns séculos depois de Lutero, tanto quanto este último, recebiam instruções diretamente do Príncipe das Trevas. Era preciso reconhecer que essa interpretação, encarada do ponto de vista necessariamente particular de um monarquista católico, não carecia de alguma coerência.”


Se alguns discursos no presente histórico fazem lembrar de Maistre não é mero acaso. A ideologia reacionarista ultramontana (adaptada, é claro, ninguém hoje pede monarquia absoluta) sobrevive e é reativada surpreendentemente no século XXI na cabeça de gente classificada pelo mainstream dos cientistas políticos como “extrema direita”, “democratas iliberais”, “populistas”, “duguinistas”, etc. Houellebecq é um decodificador muito arguto dos discursos ideológicos do nosso tempo. É um arqueólogo das ideias. Em Submissão, chamou a atenção para o ideólogo francês René Guenón, influente no ideólogo russo Alexandr Duguin e em grupos pró-islamização do Ocidente liberal decrépito (“já que Deus morreu, Freud morreu, Marx morreu, antes que eu comece a me sentir mal, vou me converter ao islamismo”, é mais ou menos assim o raciocínio).


O círculo que contém os vértices do pentagrama invertido formado pelos locus dos atentados terroristas tem como centro a França, a pátria dos Lumières, de Voltaire, Rousseau, Diderot, e de todos inimigos da “constituição gótica” (expressão de Antônio Negri), ou seja, do regime político do Ancien Régime, as teocracias cristãs absolutas pré-revolucionárias. Por assim dizer, foi em território francês que Baphomet veio à tona e começou a “espalhar seus erros pelo mundo”. Sem a Revolução Francesa não teria havido a Comuna de Paris, a Revolução Bolchevique, nem o Fascismo e o Nazismo, segundo a interpretação reacionária e conservadora padrão. No Brasil, entre católicos mais extremos, como Plínio Correia de Oliveira, do movimento Tradição Família e Propriedade (TFP), inspirador dos Arautos do Evangelho, essa interpretação da Modernidade como marco de decadência em relação à civilização supostamente mais virtuosa da Idade Média é ainda viva. No século XIV, o espanhol São Vicente Ferrer já teria profetizado as desgraças que se abateriam sobre o mundo na passagem do “pórtico da idade média”

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A sátira política: Emmanuel Macron, braços abertos formando uma cruz


Um grande evento político está para acontecer em 2027, tempo em que a narrativa transcorre: a eleição presidencial que vai apontar o sucessor de Emmanuel Macron, mencionado no livro apenas como “o Presidente”.


Houellebecq, tecendo seu comentário político crítico por meio da ficção, deixa claro que o Macron reeleito em 2022 não é o mesmo que fora eleito em 2017. É já um homem acostumado ao poder, totalmente entregue à libido dominandi. Não é mais o idealista progressista de uma “startup nation”, mas um homem que promete o retorno aos “trinta anos Gloriosos”. Os historiadores convencionaram chamar os anos que se passaram entre 1945–1975 como os “trinta gloriosos” porque foi uma era de reconstrução da Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial, com grande crescimento econômico, um boom de natalidade, emprego pleno, descolonização, estado de bem-estar social, e radical diminuição da pobreza. Mas, em França, foi o tempo em que reinou o titã Charles de Gaulle. Isso significa nacionalismo. Macron, um “magnífico animal político”, segundo o narrador, capturou bem o espírito de seu tempo: o globalismo liberal está entrando em recesso; é preciso apelar novamente para o ideal de nação, para o identitarismo nacional, para o Estado forte. Com sua peculiar argúcia, Houellebecq flagra um momento da comemoração da reeleição de 2022 em que o Presidente francês abre bem os braços, bastante esticados para traz, em cruz. A cruz, símbolo tão essencial para as nações ocidentais quanto as arcadas gregas ou o Corpus Juris Civilis romano. É uma guinada nacionalista, mas também uma guinada centralizadora, e uma guinada para a economia protecionista e fortemente dirigida pelo Estado. Os braços abertos de Macron equivalem também a um gesto de banana para a União Europeia. Uma banana ambígua, mas uma banana.


Bruno, o politécnico, o tecnocrata, o melhor Ministro francês desde Coubert (aquele que serviu a Luís XIV e pretendia tudo controlar), está em perfeito alinhamento com seu presidente. Quer fomentar a indústria francesa, quer passar por cima dos regulamentos da União europeia que travam o crescimento francês, quer vender usinas nucleares para países africanos afrontando o consenso ambientalista global. O programa econômico de Bruno é quase um Make France Great Again.


A administração de Bruno é um sucesso, a França parece viver novamente a euforia dos trinta gloriosos. Mas Bruno é mais um animal administrativo que um animal político. Macron quer se aproveitar disso e fazer dele o seu “poste” para voltar depois nas eleições de 2032. Mas eis que surge no caminho uma outra alternativa à sucessão presidencial: Benjamin Sarfati, uma celebridade do comentário político na televisão. Mais um clown populista midiático, começa a carreira com um programa de televisão parecido com o extinto Pânico na TV. Era uma espécie de Repórter Vesgo. Depois de muito meditar, o presidente acaba por escolher Sarfati como seu candidato à Presidência, Bruno continuaria Ministro da Economia ou talvez Primeiro Ministro, mas teria uma participação ativa na campanha. Quando ela começa, um insuspeito animal político em Bruno desperta para a surpresa de todos e quase ofusca Sarfati. Isso confirma a expectativa do Presidente: Bruno no seu lugar teria êxito político e administrativo e disputaria a reeleição em 2032. Já Sarfati, a quem só interessa o glamour do poder, seria um desastre e o povo chamaria Macron de novo. Maquiavélico? Não, Macron é um magnífico animal político.


O candidato adversário, do partido Rassemblement National, é aliado dos Le Pen, da direita identitária chauvinista e sai na frente nas pesquisas. Porém o atentado contra os imigrantes africanos salva o grupo de Macron. A estrategista da campanha, cheia de stories (publicidade hoje é contar uma boa storie) usa genialmente o “fazer do limão uma limonada”. Uma grande celebração em homenagem aos mortos é feita a bordo do porta-aviões Jacques Chirac, com presença de potentados do mundo todo. Na verdade, é um grande comício disfarçado, que aproveita a comoção nacional causada pelo atentado hediondo. Pari passu, a compaixão pelos mortos leva a uma rejeição do candidato anti-imigração.


A vitória de Macron-Sarfati-Bruno se consuma. Mas Houellebecq não deixa de fazer da política uma comédia. Logo em seguida às eleições, o Senado extingue o cargo de Primeiro Ministro. Bruno fica sem subir um degrau carreira, a ver navios.


O drama familiar: Mentiras maravilhosas


O eixo do thriller policial é um divertissement, um entretenimento envolvendo teorias conspiratórias misturadas a uma possibilidade real: o terrorismo de extrema direita não é nada improvável no tempo em que vivemos. Aliás, esse tipo de terrorismo já aconteceu nos EUA e no Brasil, nos janeiros de 2021 e 2023, respectivamente. É um fantasma que hoje ronda a Europa, junto com os fantasmas do terrorismo islâmico que agora dorme, e do fantasma da nova Guerra Fria iniciada com a invasão da Ucrânia.


A sátira política é também entretenimento no sentido que o filósofo Pascal dá ao termo: qualquer coisa que nos livre de pensar no “último ato”. Houellebecq transcreve o célebre trecho dos Pensamentos pascalianos e o faço também aqui:


“O último ato é sangrento, por melhor que seja a comédia em todo o resto: no final se joga terra sobre a cabeça e é isso para sempre.”


E o último ato do romance é de fato um drama. Antes de o autor cerrar as cortinas com seus últimos e comoventes capítulos, em que emerge a voz de um Houellebecq ainda calmo e bem humorado, mas revelando autêntica compaixão pelo sofrimento humano, cessa toda o divertimento do thriller policial e da comédia política. Resta o indivíduo Paul Raison e seu inesperado calvário.


Mas antes, falemos um pouco da família de Paul.


Paul Raison é um millenial. Nasceu em 1981 e tem 46 anos em 2027, tempo em que se passa a narrativa, como vimos. Mas ele pode ter 50 anos também, pois há informações incoerentes no romance: numa passagem, o narrador diz que Paul nasceu em 1977. Prefiro ficar com o nascimento em 1981, interpretação que coloca o personagem mais próximo de mim, este que escreve, que nasci em 1981. Cheguei a este cálculo de 46 anos na passagem em que Paul revê posters do filme Matrix em sua casa paterna, pregados na parede. Ele vira o filme no ano de seu lançamento (1999), poucos dias antes de fazer 18 anos. Sua esposa, seu amigo Ministro da Economia, Bruno Junge, seus irmãos, e a mais da metade dos outros personagens são da mesma geração.

Me pergunto porque Houellebecq não escreveu dessa vez sobre os homens de sua própria geração, a geração intermediária entre os baby boomers e os millenials, nascida entre meados de 1965 e 1980. Bem, passando a navalha de Ockhan, a explicação mais simples que me ocorre é a seguinte: em 2022, quando foi lançado o livro, os millenials estão no meio da pirâmide, entre as pessoas que têm entre 40 e 59 anos. Enquanto os baby boomers estão já aposentados, morrendo, e acorrendo a clínicas discretas dedicadas à eutanásia, e enquanto a geração intermediária de Houellebecq vai se aposentando, a geração millenial, que está no meio da sua existência, sustenta a existência da França. É preciso falar dessa geração, ela quer saber sobre si mesma, ver-se no espelho, e quer que alguém mais experiente a analise e lhe dê conselhos. Não é exatamente uma razão comercial. Segundo os relatórios bienais do Centre National du Livre, ligado ao Ministère de La Culture, de 2023, 87% dos cidadãos franceses são leitores regulares de livros, sendo a faixa etária de 24 a 35 anos a que mais lê, embora a faixa de leitores de 35 a 49, e de 50 a 60, também encerre um alto percentual de leitores (gira em torno de mais ou menos 85%).


Paul é casado com Prudence, que tem esse nome em homenagem a uma canção do Álbum Branco dos Beatles. É servidora pública de alto escalão como ele. Uma mulher doce, vegana, e adepta da religião(?) pagã Wicca, que crê em reencarnação e em um Deus e uma Deusa equipotentes. Algumas "mentiras maravilhosas". No início do romance estão em crise, não têm relações sexuais há três anos, sequer dormem juntos. Não é algo incomum entre os casais de meia idade, nota o narrador. As gerações ainda mais jovens, ironiza, por sua vez, viam “a relação sexual entre dois indivíduos autônomos, mesmo que durasse alguns minutos” como “uma fantasia lamentável e datada”. Os filhos da geração baby boomer vão perdendo, nota Houellebecq, progressivamente, o interesse pelo sexo.


À crise no casamento vem se somar outros problemas familiares ordinários na vida ordinária de Paul. O pai, Edouard, sofre um AVC logo nas primeiras páginas e acaba sendo enviado a um instituição que cuida de idosos doentes. O médico que dirige a instituição, Leroux, é sui generis como o Dr. Oliver Sacks de Tempo de Despertar (1991) e cria uma relação muito pessoal com os pacientes. Avesso aos protocolos hospitalares padrão, permite que a segunda mulher de Edouard, Madeleine, cuide do companheiro dentro do hospital. Até que há uma intervenção burocrática na instituição a fim de adequá-lo aos procedimentos e protocolos padrão, Leroux é afastado e Madeleine impedida de tratar do companheiro dentro da instituição. A impessoalidade que os cuidados vão tomar, e as restrições terapêuticas para reduzir despesas, vão acabar por apressar a morte do aposentado, pensam os filhos. Diante disso, eles decidem tirá-lo de lá através de uma operação esquisita que se assemelha ao rapto de animais em cativeiro por militantes ecologistas . O velho vai ser tratado em casa.


Edouard passou a relacionar-se com Madelaine após a morte da esposa, mãe dos três filhos, Paul, Cécile e Aurélien. A mãe de Paul fora uma restauradora de estatuetas de gárgulas e quimeras de antigas igrejas católicas. Aos 40 anos, decide se dedicar às próprias criações artísticas. Suas esculturas ganham uma relativa fama, o que atrai a atenção de uma jornalista ambiciosa, Indy, que se aproxima da família e acaba por se casar com o filho mais jovem, Aurélien. Se o casamento de Paul e Prudence é de uma monotonia incômoda, o de Aurélien e Indy é sufocante. Para o rapaz, que vive como restaurador público de tapeçaria de castelos medievais, Indy é uma bruxa. Indy é autoritária, arrivista, é permanentemente ressentida por não ascender na carreira. Uma patricinha mimada. É também uma poser, a ponto de optar no procedimento de reprodução assistida pela barriga de aluguel para não passar pelo incômodo da gravidez, e de decidir-se por um progenitor negro, só para ficar bem na fita entre a esquerda antirracista da moda. Tudo nela é cálculo para satisfazer suas ambições. O principal de motivo de seu casamento com Aurélien era a herança das obras de arte da mãe do esposo. Áurelien, uma criatura frágil e melancólica, acaba por não suportar, torna-se amante de um enfermeira da casa de repouso em que o pai está internado, e vive algum tempo feliz com ela, uma mulher negra como seu filho (um traço positivo da família de classe média de Paul é a imunidade a qualquer forma de racismo). Todavia, não tem forças para suportar um divórcio contencioso. O ódio de Indy por ser trocada tornar sua vida um inferno. O rapaz se suicida.


A irmã do meio de Paul, Cécile é uma mulher simples, católica praticante, casada com o tabelião desempregado Hervé, que na juventude pertenceu a um perigoso grupo identitarista branco francês do qual não se fala muito. A vida de Cécile e Aurélien contrastam com a de Paul não só porque os dois primeiros têm filhos, mas porque passam por privações financeiras que o protagonista, alçado ao alto escalão do Ministério da Economia, não conhece. Uma das filhas do casal, Anna-Elise acaba por se tornar uma prostituta de luxo e o acaso a leva a ter um programa com o tio. É só na hora do boquete que Paul percebe, estupefato, que contratara a própria sobrinha. A menina não acha nada mal. "Ajoelhei, vou rezar". É a única passagem picante e pervertida do romance de um autor célebre por passagens obscenas ao extremo como classificaria a censura moral.


Após a morte do irmão e a doença do pai, Paul e Prudence vão se reaproximando. As relações sexuais retornam. Prudence passa a usar shortinhos sedutores e é exatamente nesse ponto que a fortuna faz desabar o mundo sobre a vida do protagonista.

Dores de dente o levam ao dentista. Dali vai a um otorrino, e deste chega a um oncologista. O diagnóstico é devastador: câncer na mandíbula, tratamento com cirurgia que promete mutilar boa parte dos ossos de sua face e, terror dos terrores, decepar sua língua. E mais: quimioterapia e radioterapia. Daí em diante acompanhamos a lenta degeneração do corpo de Paul Raison, quando a quimio e a rádio começam a competir com o câncer para aniquilá-lo.


Raison recusa a cirurgia, mas aceita a devastação de suas células, sadias e malignas, pelo tratamento não invasivo. Sua derrocada é dolorosa e rápida, seu corpo cai em uma fadiga total, menos o pênis. Houellebecq — só podia ser ele — alivia seu personagem com leituras de romances policiais e sexo no casamento. Sexo de lado para não cansar muito, mas também dedicados, carinhosos, e longos boquetes de Prudence.

Aprendemos que um moribundo pode ter ereções. Tudo confirmado pela melhor ciência médica, porque o autor entrevistou longamente três médicos ao menos para compor o quadro da aniquilação de um homem de meia idade pelo câncer. Nesse ponto é que entra o lirismo compassivo de que falei, algo incomum no conjunto de sua obra. Vale a pena transcrever uma passagem em que Paul, já muito debilitado, visita o pai paralisado pelo insulto cerebral:


“(…) Paul estava ao lado do pai, diante da vidraça. Os dois contemplavam a paisagem que agora, sob os raios do sol poente, era de uma beleza sobrenatural; ela [Prudence] parou, assombrada. Sua intenção original era dizer a Edouard que ia levar Paul, já estava quase na hora do jantar, e que Madeleine viria buscá-lo logo em seguida; e de fato ia fazer isso, claro, mas não agora, o jantar podia esperar um pouco, era impensável interromper a contemplação daquele pôr do sol. Claude Gellée, conhecido como ´Le Lorrain´, em certas pinturas fizera coisas assim, às vezes piores, instalando definitivamente no homem a tentação inebriante de partir para um mundo mais belo, onde nossas alegrias seriam completas. Isso geralmente acontecia ao pôr do sol, mas era apenas um símbolo, o momento real dessa partida era a morte. O pôr do sol não era uma despedida, a noite ia ser breve e desembocaria numa aurora absoluta, a primeira aurora absoluta do mundo, é o que se poderia imaginar, pensava Paul contemplando as pinturas de Claude Gellée, conhecido como ´Le Lorrain´, e contemplando também o sol poente sobre as colinas de Beaujolais”.




O que é aniquilado no romance?


Pouco antes do fim do romance, Paul está num “bosque imenso”, onde uma “ligeira brisa agitava as folhas” e “a floresta parecia animada por uma respiração calma, infinitamente mais calma que qualquer respiração animal, para além de qualquer agitação e também de qualquer sentimento”. Permanece lá com Prudence “por um pouco mais de duas horas, deixando-se invadir por uma paz profunda, antes de voltar para o carro”.

Prudence tem a fé firme de que Paul reencarnará e se reencontrarão. Acredita mesmo em Wicca. Uma "mentira maravilhosa" que os tranquiliza, como tantas outras mentiras maravilhosas que permitiram a continuidade desse matrimônio. Paul é agnóstico, a vida toda foi do tipo que fica em cima do muro. É um Pascal que não faz aposta e que não tem exatamente uma angústia religiosa ou existencial, mas um, digamos, desconforto religioso e existencial. Contudo, o flagramos sentindo algo como um chamado espiritual ao visitar uma velha capela algumas vezes.


Houellebecq também parece confortável nessa posição, ele tem lá seus torcicolos existenciais entre uma foda e um cigarro. Entrevistado por uma jornalista brasileira, por ocasião do sucesso do romance Submissão, disse que acreditava em Deus dependendo do dia, de sua disposição de humor, de como acordava. Aniquilar não é um romance que faz apologia de nada, por isso é um bom romance. Não é apologia de nenhuma religião, de nenhuma causa política. Se alguma fé professa em seu romance é a de que só o amor pode nos amparar no último ato e de que ele é a única que resta de valiosa ao fim de toda a comédia humana.


Por fim, é preciso ressaltar que Aniquilar não é um romance sobre a decadência do ocidente como algumas resenhas preguiçosas insistem em repetir como clichê. Tampouco é feito de um “niilismo sensível”.


O título do livro é enganoso. Mais que um romance sobre a aniquilação do ocidente, e talvez do homem, ansiosamente aguardada pela nova religião gnóstica que se traveste de catastrofismo ecológico, é um romance sobre o incansável ímpeto humano de reconstruir, de se refazer, e de refazer o mundo. O grande símbolo disso é a pequena igreja que o protagonista visita com recorrência:


“Num sábado, no meio de dezembro, Paul foi à igreja de Notre-Dame de la Nativité de Bercy que fica na Place Lachambeaudie, a cinco minutos de sua casa a pé. Era uma igreja muito pequena, provavelmente construída no século XIX, um pouco deslocada naquele bairro moderno e até pós-moderno. A poucos metros dali passavam os trilhos da rede ferroviária Sudeste, por onde circulava o TGV para Mâcon e Lyon, com certeza ele já tinha passado muitas vezes por aquela igreja sem suspeitar da sua existência. Um folheto informativo explicava mais: construída em 1677 com o nome de Notre-Dame de Bom Secours. Havia sido destruída em 1821, ficando quase em ruínas, sendo reconstruída partir de 1823. Durante a Comuna foi novamente destruída e um pouco mais tarde reconstruída de maneira que ficasse idêntica. Depois sofreu os efeitos das enchentes do Sena em 1910, foi atingida em abril de 1944 pelos bombardeios à ferrovia e então parcialmente destruída por um incêndio em 1982. Em suma, era uma igreja que havia sofrido e que ainda hoje parecia distante dos seus melhores dias. Nessa tarde de sábado, estava absolutamente deserta e dava a impressão de ficar assim quase sempre. Se alguém quisesse uma imagem das tribulações do cristianismo na Europa ocidental, não poderia encontrar nada melhor que a igreja de Notre-Dame de la Nativité de Bercy.


Esse é um trecho negligenciado mas central no romance. Com ele, Aniquilar se alinha com outro romance francês premiado (a literatura mais relevante do século XXI está sendo produzida na França): Sermão sobre a queda de Roma, de Jeromi Ferrari. Não tem fim do mundo, nem para quem morre, mesmo que não exista vida após a morte, é a bela lição que Ferrari colheu em Agostinho, um dos pais fundadores do Ocidente, e que Houellebecq também nos dá.




 
 
 

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